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Caminho em 2008, 13 dias

Descrevo agora, de forma resumida, a viagem de 13 dias que fiz em fevereiro de 2008, 800 km pedalando no inverno espanhol.

3 de Fevereiro de 2008. Trecho 1. De Roncesavalles a Cizur Menor (47 Km)

O primeiro trecDSC08888ho já se mostra a que veio. Saimos de Roncesavalles, na província de Navarra, montanhosa, cheia de subidas e descidas. O dia é longo e duro, uma amostra de como serão os próximos daqui pra frente.

CIMG0840Normalmente, ao longo de toda a viagem você deve optar pelo caminho de teDSC08954rra (como o da foto ao lado, evitando a estrada), mas você vai ver que algumas vezes se faz necessário pegar a estrada. E foi o que aconteceu nessa primeira parte. Alternamos caminho de terra e estrada devido as condições de lama, normal pela umidade da região.

CIMG0835Paramos na cidadezinha de Burguette, para tomar café da manhã (ao lado). Em Zubiri notei uma mudança em relação a 2001. Fizeram um caminho novo, espécie de ciclovia que dá uma volta a mais, mas é muito mais cômodo. Após algum tempo pedalando, tempo aliás que não terminava nunca (pela fome que se agravava), chegamos em Pamplona. Pamplona é uma linda cidade para parar e andar para conhecer à pé, além de ótimo lugar para almoçar e dormir. Em 2001 fiquei hospedada no albergue da cidade (que não tinha onde guardar a bicicleta, mas o hospitaleiro deixou que eu a guardasse embaixo da escada por ser a única bicicleta daquela tarde/noite).

Se chegar cedo em Pamplona, com tempo suficiente para conhecer e continuar, tem outro albergue bem próximo, em Cizur Menor. E foi onde ficamos. É bem agradável (7 euros) e equipado com máquina de café e de comida (como sopa instantânea, entre as opções, por exemplo).

Trecho 2. De Cizur Menor a Estella (42 Km)

Muita subidaDSC09022, principalmente entre Puente La Reina e Óbanos. Puente La Reina é uma ótima opção para almoçar, tem banco e serviços como lojas e mercadinhos. Depois de Óbanos passamos por Cirauqui (que significa ninho de víboras, em euskera – a língua de origem do país Vasco e, dizem, ser a língua mais antiga do mundo!), uma cidade deserta, cruzando Villatuerta, até chegar a Estella.DSC09028

Chegamos a Estella já no final da tarde. Deixamos nossas coisas no albergue (ótimo e custa 5,50 euros com café-da-manhã), tomamos banho e fomos dar uma volta na cidade e jantar em um dos restaurantes da cidade.

Trecho 3. De Estella a Logroño (49 Km)

De Estella a Los Arcos o caminho é bastante duro, com muitas subidas, com trechos tendo que empDSC09017urrar a bicicleta.

Cinco quilômetros depois de Estella, parei para visitar o Monasterio de Irache. Estava fechado, porémCIMG0930, encontrei a famosa fonte de vinho. A fonte consiste em duas bicas: uma de água fresca e outra de puro vinho. Sem pensar duas vezes, esvaziei a minha garrafa de água e enchi de vinho. Claro que o vinho não é dos melhores, mas quando você encontrará novamente uma fonte que saia vinho, ao invés de água? Recomendo provar pelo menos. 🙂

Em Los Arcos paramos para almoçar. É uma cidade com boas opções, com um casco viejo interessante, com suas casas antigas feitas de pedra. Em 2001, fiquei nesse albergue, cujos donos eram belgas (e que na época custava 500 pesetas). Naquele momento, também pude assitir uma missa, com benção dos peregrinos, que acontecia às 20:00. Após almoçar um sanduíche, seguimos para Sansol e, em seguida, Torres del Rio. A partir de Viana se abre um bom caminho com ciclovia até Logroño, onde paramos para ficar no Albergue (3 euros). Logroño é uma graça, parada obrigatória para conhecer à pé.

Trecho 4. De Logroño a Belorado (73 Km)

Esse trecho se pode fazer a maior parte pelo caminho de terra. Em Navarrete, o abergue estava fechado. Seguimos até Nájera, passando por Azofra onde, em 2001, ganhei uma moeda cunhada especialmente para peregrinos, no bar da praça, mas em 2008 já não faziam mais. Independentemente da moeda, valeDSC09192 a pena tomar um suco de laranja nesse bar, um dos melhores da vida! Até Cirueña se percorre um longo caminho com subidas maiores do que lembrava de 2001 (onde tem um campo de golfe (!?!). Chegamos a Santo Domingo de la Calzada, um bom lugar para almoçar DSC09200(no restaurtante da praça pedimos um Menú del Día de 9 euros maravilhoso)! Na Catedral da cidade é interessante ver a curiosa gaiola com um galo e uma galinha vivos dentro do Templo. Saindo de Santo Domingo de la Calzada, passamos por Viloria, até chegar no Albergue de Belorado (7 euros)

Trecho 5. De Belorado a Burgos (52 Km)

Tosantos é uma cidade muito pequena, ao lado da estrada, mas é parada obrigatória para DSC09226visitar uma Igreja encrostada na montanha (já tinha visitado em 2001 e continuava igual). Consegui localizar a mesma senhora que havia aberto a Igreja para minha visita, Maria de Ramos, que continuava morando na mesma casa. DSC09228Ela não me reconheceu mas eu a reconheci, alguns anos depois, mas era a mesma, sem dúvida, com a mesma chave grande que abre o cadeado de ferro. Após a visita, deixei 3 euros como donativo para manutenção da Igreja.

Seguimos em direção a DSC09242Villafranca e, em seguida, para La Pedraja. Chegando aqui é melhor optar por subir pelo caminho de tCIMG1023erra ao invés da estrada. O caminho até San Juan Ortega é longo. Chegando lá resolvemos parar para tomar um suco de laranja e lavar as bicicletas em uma fonte. A Catedral estava fechada, mas sua fachada é linda.

O caminho a seguir,  até Atapuerca, é maravilhoso. Chegamos a linda cidade de Burgos, com vários pontos dCIMG1036e interesse para parar e andar à pé. A entrada da cidade (depois de passar por um trecho mais industrial e um pouco desconfortável) é linda, feita por árvores secas e galhos retorcidos.

DSC09289O albergue é uma graça, em estilo de cabana canadense de madeira (3 euros). Ficamos no albergue após fazer um reconhecimento completo na cidade, passando por seu casco viejo e supermercado, para comprar mantimentos.

Trecho 6. De Burgos a Carrión de los Condes (82 Km)

CIMG1041De Burgos até Castrojeriz foi o melhor caminho até agora, bastante plano e agradável. Saímos de Burgos com uma neblina gelada, que nos acompanhou durante 1 hora. Chegamos em Castrojeriz para almoçar no El Mesón (o mesmo onde já havia almoçado em 2001 com 2 vascos vikings que havia conhecido, na época, pelo caminho). Logo após o almoço (com direito a vinho e tudo o mais), nos deparamos com uma muralha de pedra (foto à direita – sim, tivemos que subir essa singela montanha), que evitamos acreditar que seria, de fato, o nosso caminho. Mas, para nosso tristeza, a cDSC09373ada pedalada a nossa crença nos contradizia. Subimos a montanha com sol a pino (21o C!!!) para logo depois descer tudo novamente, um caminho de terra batida muitDSC09382o agradável. Ao longo do caminho, passamos por um grupo muito simpático de cabras curiosas.

DSC09401Chegando a Frómista, vale parar para visitar a Igreja românica de San Martin. O albergue da cidade estava fechado e seguimos até Carrión de los Condes. O caminho daí em diante é plano, reto e segue paralelo à estrada, ao longo do qual passamos por umas 4 cidades e um pôr-do-sol incrível, com o sol se pondo à nossa esquerda, paralelo ao caminho e que nos acompanhou até bem pouco antes de chegarmos a uma cidade cor de rosa.CIMG1137Chegando a Carrión de los Condes, o albergue ao lado da Igreja estava fechado. Entrei para perguntar onde havia outro refúgio e nos indicaram o Albergue Espírito Santo, um monastério de freiras que disponibilizou um quarto privado, ótimo depois de dias de coletividade (8 euros). Foi um lindo dia! 🙂

Trecho 7. De Carrión de los Condes a León (95 km)

O trecho mais longo de todos e, ainda, bastante plano. Em Carrión de los Condes tomamos café da manhã na praça principal e, ao sair, optamos pelo caminho de terra.Em Sahagún paramos para almoçar e visitar a cidade. Entramos em Burgo Ranero, mas o albergue (que eu havia dormido em 2001) estava fechado e, em Mansilla de las Mulas, visitamos o albergue e selamos a credenCIMG1164cial. A entrada de León é complicada para quem chega de bicicleta – as flechas amarelas estão voltadas para os peregrinos à pé, do lado esquerdo, e tivemos que andar na contramão para não perder a sinalização. León é uma cidade maravilhosa para passear à noite, beber uma cerveja e relaxar a musculatura. Voltamos ao albergue do Monastério de León (5 euros como donativo) para, às 21:15, assistir a oração das freiras e a benção dos peregrinos. Às 22:00 fomos dormir ao som de um ronco incessante de uma peregrina no nosso quarto coletivo cheio de beliches.

Trecho 8. De León a Rabanal del Camino (73 Km)

Tomamos o café da manhã no Monasterio das freiras e fomos visitar a linda Catedral de León (visitaCIMG1196 obrigatória). Saindo de León, atenção à sinalização do caminho de terra, que a partir deCIMG1207 León até Astorga é muito ruim (faltam indicações de flechas amarelas em muitos pontos). Chegando em Hospital de Óbrigos, uma cidade pequena, simpática, com uma ponte linda (foto ao lado), o caminho parece infinito, com muitas pedras, subidas e poCIMG1221ucas flechas. Chegando a Astorga, vale a pena dar uma volta para conhecer o Palácio de Gaudí e a Catedral de Santa Maria. Saindo de Astorga, chegamos em El Ganso, a partir de onde optamos por pedalar pela estrada, paralela ao caminho e que permitia desenvolver mais.

Após um duro e longo caminho, chegamos a Rabanal del Camino, por fim, a cidade de peDSC09549dra. O albergue municipal estava fechado, mas tinha outro, El Pilar, que estava aberto. Éramos as únicas peregrinas. O albergue é excelente e a melhor ducha até o momento. Às 19:00 fomos à Igreja da cidade assistir à missa gregoriana (imperdível). Após a missa, jantamos em um restaurante (improvável naquela cidade de pedra), mas excelente, indicado pela Pilar.

Trecho 9. De Rabanal del Camino a Ruitelán (75 Km)

O caminho seguia com algumas subidas, mas nada muito duro. Ao longo da subida até a Cruz de Ferro (a 1504 metros de altura, e considerado o ponto mágico entre o céu e a terra), tiveDSC09594mos uma boa surpresa ao presenciar neve ao longo da estrada. Mas, o que realmente temiCIMG1257a era o que vinha após a Cruz de Ferro, a partir de onde se deve ter muito cuidado na descida! A estrada não tem acostamento, o que significa que os carros andam muito perto de nós,ciclistas, mesmo em sentido contrário. É preciso frear bastante para ir com cuidado e não correr perigo. Durante a descida decidimos parar estrategicamente em El Acebo para tomar um suco de laranja. Ao fim de toda a descida chega-se a Molinaseca, de onde seg
uimos a PonferradDSC09646a. Aqui há o Castelo dos Templários, que estava fechado. Era uma 2a feira e, assim como em 2001, não pude conhecer por encontrá-lo, coincidentemente, fechado. A partir de Villafranca del Bierzo, a maior parte do caminho se dá através de uma ciclovia amarela, paralela à estrada e ao rio, até chegarmos a Ruitelán. No albergue de Ruitelán jantamos muito bem e tomei um banho maravilhoso!

 

Trecho 10. De Ruitelán a Tricastela. Dia de O Cebreiro! (30 Km)

Dia que já sabíamos, seria duro. Subida longa, que passa O Cebreiro e continua até o Alto do Poio. SaindCIMG1307o de Ruitelán abrem-se 3 opções. Optamos ir por um caminho de asfalto, evitando a estrada e evitando também o caminho de terra, impraticável de bicicleta. O primeiro trecho, até a bifurcação para Laguna, não é tão íngreme, mas sim longo. Quando pegamos a estradinha para Laguna à direita, a subida se torna bastante vertical e cansativa em princípio para, depois, ir aplanando aos poucos. Demoramos bastante para completar a subida, interrompendo com paradas para fotos (e chupar 5 laranjas)! Em La Laguna de Castilla se abrem 2 opções: caminho de terra à esquerda, ou asfalto.Optamos pela 2a e depois de mais alguns quilômetros de subida, chegamos no alto do Cebreiro a 1.300 metros de altitude (Atenção sobreDSC09709 a sinalização: aí no alto não tinha indicação, mas pegamos à esquerda e logo vimos a placa do Caminho colocada na estrada mais abaixo). Pedalamos mais alguns metros e chegamos à cidadezinha do Cebreiro – toda de pedra, linda! Paramos para selar a credencial e tomar uma clara (mistura de cerveja e soda limonada) e queijo galego. Voltamos à estrada e subimos mais 8 Km até o Alto do Poio.DSC09727A partir daqui vem a descida. Toda a subida foi iDSC09736nvertida em apenas 25 minutos! Chegamos em Tricastela, uma bucólica região onde fica o refúgio municipal, junto ao rio. É a Galícia, linda e verde. Jantamos no próprio albergue e provamos o sensacional Caldo Gallego, feito de verduras e batatas cozidas. Dormimos no albergue de Tricastela (6 euros).

Trecho 11. De Tricastela a Portomarín (41 Km)

Trecho mais bonito de todos, sem dúvida! Desde a saída de Tricastela o caminho já se desenhDSC09741a lindíssimo. Apesar de algumas subidas difíceis (tivemos que empurrar as bicicletas em algumas partes), éramos premiadas com paisagens deslumbrantes. Em Sarria almoçamos um ótimo Menú del Peregrino. O caminho até Portomarín se desenvolve entre fazendas, pastos e casas de pedra, intercalado por subidas – ora em asfalto, ora em terra batida com pedras e atéDSC09783 em pedra e água. Chegando a Portomarín vi uma diferença clara comparando a 2001 – o lago, nessa época seca do ano (inverno) estava seco, bem diferente de Abril de 2001, quando era um lago enorme. Ficamos no albergue de Portomarín (6 euros).

Trecho 12. De Portomarín a Ribadixio de Baixo (50 Km)

Fazia muito frio às 9:00, depois do café da manhã em uma cafeteria perto do albergue de Portomarín. OCIMG1429 caminho inteiro é formado por muitas subidas e descidas, na maioria das vezes de terra com pedras. Chegamos em Melide, cidade famosa pelo Pulpo a la Gallega (polvo local muito tradicional e que se deve parar para conhecer, com certeza!) Almoçamos na Pulperia Garnalha.De Melide ligamos para Dolores, do albergue de Ribadiso de Baixo para saber se estaria aberto. Ela avisou que poderíamos entrar, caso ela ainda não tivesse chegado. Foi o que fizemos. Chegamos no albergue e só tínhamos nós por lá e escolhemos o melhor quartinho. Depois chegoCIMG1441u um grupo de 24 franceses adolDSC09830escentes, e o líder do grupo nos ajudou emprestando uma panela para que cozinhássemos nosso macarrão instantâneo. Albergue de Ribadiso de Baixo (6 euros)

15 de Fevereiro de 2008. Trecho 13. De Ribadiso de Baixo a Santiago. Último dia, infelizmente (42 Km)

Tomamos café da manhã em um restaurante de estrada, na cidade de Arzúa. Nostalgia e felicidade se misturavamDSC09911 ao pedalarmos por um caminho de contínuas subidas e descidas, combinadas com bosques de mata fechada e campos abertos e cidades. Após 42 quilômetros, chegamos a Santiago!Emoção, descanso e vontade de fazer tudo de novo. Às 12:00 do dia seguinte assistimos à Missa dos Peregrinos na linda Catedral de Santiago. Vale a pena se dar um presente e ficar em um bom hotel nessa cidade mágica, cheia de vida e bares a cada metro. Não esquecer de ir aonde se mostra a credencial para receber o certificado do caminho.

 

Para quem pensa em fazer o Caminho no inverno, minha recomendação é: faça! Pelo menos a minha experiência foi mágica. Nenhuma gota de chuva e temperatura de primavera! No dia 3/02, por exemplo, fez 2oC pela manhã, 6oC às 17h e 11oC às 18h. Em outro dia chegamos a pegar até 21oC!

O único ponto de atenção que percebi no inverno é a grande quantidade de albergues fechados. Não tivemos problemas por ter encontrado opções, mas também pelo fato de estarmos de bicicleta, com deslocamento mais fácil que à pé. Uma solução é ter em mãos os telefones de cada albergue para checar sua abertura um dia anterior.

Após 7 anos do meu primeiro caminho (em 2001), algumas coisas mudaram. Alguns caminhos antes, mais estreitos, agora se encontravam mais amplos. Outros têm asfalto e até mesmo contam com desvios, devido às obras nas estradas. Revi algumas pessoas, como a Maria de Ramos, da Igreja de Tosantos e o Carlos, do albergue de Ruitelán. Surpreendo-me ao não me lembrar das muitas subidas do caminho. Não sei se será algo positivo – por ter recordações somente da parte boa e não guardar más lembranças – ou ruim, por ter sentido mais resistência e um maior esforço 7 anos depois 3 e com o corpo naturalmente mudado. Sendo uma coisa ou outra, guardo ótimas lembranças de cada momento, seja ele reto, descida, subida, curva, qualquer um.

Uma sorte poder cumpri-lo de novo! Obrigada e boa viagem!

Caminho em 2001, 12 dias

Um mês antes de começar a minha primeira viagem de bicicleta, 800km, 12 dias sozinha, em Abril de 2001, rumo à cidade de Santiago de Compostela, escrevi minhas expectativas para comparar com a minha sensação real pós-caminho.

“As pessoas costumavam dizer que o caminho começa quando você decide fazê-lo. Tudo bem. Por essa definição faz mais de quatro meses que estou “fazendo o caminho”. Não discuto essa frase. Concordo, pois creio que o fato de se informar, planejar e equipar já permite, de alguma forma, “sentir a energia”, que todos dizem desse caminho. Mudança é uma palavra constante de todos que já o experimentaram. Dizem até mesmo que a mudança surge quando se decide fazê-lo. Eu ainda não mudei nada. Já me emocionei muito lendo alguns artigos relacionados ao trajeto, estou muito estimulada para realizá-lo, mas não quero falar que sinto ou que vou sentir algo especial só porque fiz o caminho. Espero que sim. Acho realmente que somos levados a fazê-lo porque procuramos algo que esperamos encontrar ao longo do caminho. Espero encontrar respostas para perguntas que ainda não sei quais são. Não duvido das pessoas que falam de mudanças, de que agora é uma pessoa nova e tudo o mais. Só não quero que um sentimento surgido ao longo do caminho, igual a outro sentido em uma outra viagem ou ocasião, seja multiplicado exponencialmente só pela ilusão e fama de algumas histórias. Quero muito sentir algo especial, mas não fazer com que o esforço justifique um relato exagerado.” Bilbao, 8 de março de 2001

Ao longo dos posts, falarei sobre o nascimento da idéia de viajar 800 quilômetros sozinha, as minhas expectativas e pensamentos antes da viagem, a viagem em si, as sensações, os amigos, os pensamentos e as minhas impressões finais do caminho. A minha vontade de fazer o caminho de Santiago vem antes mesmo de ter chegado na Espanha. Saí do Brasil em outubro de 2.000 para morar em Bilbao durante seis meses. Fui para estagiar na área de engenharia, em uma empresa de celulares. Acabava de me formar em engenharia de produção e queria me desenvolver em telecomunicações e aperfeiçoar o espanhol. Durante esse tempo de alguns meses, pude planejar cada etapa do caminho, que começaria logo após esse período de estágio. Assim que terminasse o estágio, iria “me despedir” da Espanha viajando sozinha de bicicleta. O fato de estar sozinha não apenas não me desencorajava, como me estimulava. Não fui impulsionada por nenhum sentimento religioso, mas sim por uma curiosidade de comprovar ou desmistificar fábulas criadas e pela simples vontade de unir turismo, natureza e esporte durante alguns dias.

A segunda viagem foi em Fevereiro de 2008, 13 dias, acompanhada. Mesmo caminho, outra viagem. Ao longo dos posts procurarei mesclar as duas experiências para tirar as melhores dicas – as mais atualizadas e interessantes das duas viagens.

Definindo o Caminho

Optei pelo Caminho Francês, o tradicional, o que parte da cidade de Jean-Pied-de-Port, a 780 km de Santiago. Há outras opções de caminhos que levam à Santiago, uns maiores outros menores, mas certamente o mais bem estruturado em termos de albergues e movimento é o Francês.

Sair de Jean-Pied-de-Port pode ser interessante se você tiver dois dias a mais de viagem para contornar o “pequeno morro” (Pirineus). Eu optei por começar desde a cidade de Roncesvalles, fronteira da Espanha com a França.

Você chega em Roncesvalles de ônibus. Nas duas vezes em que fiz o caminho peguei um ônibus até Pamplona e, de lá, outro até Roncesvalles. De Madri a Pamplona o valor da viagem foi de 5,10 euros com a bicicleta, em 2008 (o curioso é que você faz de ônibus o caminho que você fará no dia posterior, de bicicleta, no sentido contrário, claro, e de preferência pelo caminho e não pela estrada).

No ônibus, você deve colocar a bicicleta no bagageiro, tendo o cuidado de tirar a roda dianteira para que caiba.

O ônibus chega em Roncesvalles e pára em frente à Colegiata, o albergue que você passará a noite e pedirá sua credencial. Na entrada da Colegiata você preenche um formulário para adquirir a credencial (em 2001 custava 25 pesetas, depois do euro, em 2008, paguei 1 euro pela credencial). Lembro que em 2001, ao preencher a credencial você tinha que declarar sua religião – que você pode deixar em branco, claro. Porém, para os que declaram como religioso o motivo de fazer o caminho, a Compostelana (Certificado dado ao final) é muito mais bonita. Bom, isso é o que dizem. O Certificado  obviamente não era o objetivo (e religioso tão pouco era o meu motivo), ele seria conseqüência de algo que planejei minuciosamente e também uma celebração própria do ritual. Ao final, tenho dois, em latim, com meu nome traduzido e tudo. Para quem conhece alguma homônima minha, Gratilam é meu outro nome. 🙂

Ao lado do albergue (que custava 5 euros, em 2008) há uma Igreja, onde sempre tem uma missa interessante às 18h que abençoa os peregrinos na noite anterior, além de um restaurante onde se pode jantar bem antes de dormir.

Desrespeito saindo do Ibirapuera

Faço uma denúncia aqui do que presenciei por 3 vezes, no cruzamento ao lado do Parque do Ibirapuera, onde várias pessoas atravessam depois de pedalarem, correrem ou andarem por lá. Por 3 vezes vi carros desrespeitando o farol da Av. República do Líbano (foto). Nas 3 vezes os carros mantiveram a velocidade, quando vinham na pista da direita (justo ao lado da calçada do parque). Tive que acionar os frios em cima, me desequilibrando e quase caindo na pista, após a freiada brusca. Praça Dia do Senhor

 

O mínimo que se deveria fazer seria monitorar essa via tão movimentada diariamente com radares, focados principalmente nessa pista da direita, onde os carros se sentem a vontade para furar o farol, uma vez que os carros que descem da Praça do Senhor interferem menos nessa pista. Cuidado ao atravessar e comente aqui caso saiba para quem devo mandar essa denúncia.

Somos invisíveis?

Tenho vindo sempre trabalhar de bicicleta e percebo que é raro um caminho sem riscos. E o pior! O perigo não é você, mas os outros (ao não te ver). Cada vez mais vejo que não somos vistos, simplesmente não esperam ver uma bicicleta passando. Talvez isso aconteça porque só recentemente o ato de pedalar como forma de transporte se tornou um hábito mais frequente.

É uma porta que se abre repentinamente, um carro que sai da garagem sem prestar atenção, um caminhão que não dá seta para virar à direita, um carro que desrespeita a sinalização. Nós, ciclistas, funcionamos lendo o movimento dos outros, mas muitas vezes essa leitura não funciona quando os outros falham em se comunicar (a falta de sinalizar com a seta é um bom exemplo). E quando eu falo nós ciclistas, falo em motociclistas também e todos que, eventualmente, pegam suas bicicletas para uma volta no parque ou queimarem calorias.

O fato é que somos semi-invisíveis e isso não acontece somente aqui no Brasil, nem só em São Paulo. Não, o problema é mais global do que imaginamos. Uma das campanhas mais incríveis que já vi (e que mostro nas minhas aulas de inovação empresarial, por outro motivo, claro) está abaixo. Foi uma campanha de conscientização criada (veja bem!) para o departamento de Transportes de Londres para que os motoristas passassem a prestar atenção na existência das bicicletas. Brilhante porque retrata fielmente como todos nós funcionamos – vemos o que estamos preparados a ver. Veja aqui ou abaixo: